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O porquê das Greves
O Brazil tem sido o paiz ideal dos aventureiros, dos argentários que vivem a extorquir pela astucia e pela força a pobre humanidade. A industria e o commercio de homens, mulheres e crianças goza, nesta terra de promissão todas as garantias e faz o mais ruidoso sucesso. O deliquente apatacado possue carta branca para aliviar o povo do producto dos seu trabalho e triplica a fortuna em quatro dias. A quem tem dinheiro não se lhe pergunta de onde vem: é recebido de braços abertos, podendo montar aqui sua machina de exploração, protegido pelo Estado e abençoado por todos as igrejas. Sob o auriverde pendão da pátria e da republica, e a protecção das nossas instituições democráticas, liberaes e igualitárias, exercerá o privilegio de fazer o operário trabalhar por qualquer preço … ou gratuitamente, nas fazendas, nas fábricas ou nas oficinas.
Se os operários morrem á míngua e se lamentam, que vão queixar-se á virgem dos desamparados; se reclamam e protestam ahi esta a polícia o exército, a armada e todo o aparelho legalitário, que é uma jóia de justiça para acalmar os seus ânimos, indignações e desesperos, com banhos de sabre, ou os frios pavimentos dos calabouços correcionaes. Com efeito, não podem correr de outra forma porque os escravocratas, outrora proprietários de escravos, acharam muito commodo implantar este novo regimen de servidão, por ser mais simples e lucrativo, e os hodiernos tratantes de arribação, mesmo reconhecendo que é de uma brutalidade inaudita a base em elle se apoia, defendem-no com todas as suas forças pois que, para favorecer as suas tentativas de accumular fortuna não podiam achar coisa melhor. Mormente, nas presentes circunstâncias, em que a guerra provocou na Europa uma crise na agricultura e na industria. Esses dois ramos de exploração moderna tomaram aqui, para gaudio dos burguezes, um incremento extraordinário, fabricando-se até apparelhos de guerra, chovendo, diariamente pedidos de mercadorias de toda classe. Não podem os aventureiros aspirar a um campo de acção superior a este onde, mais do que em outra qualquer parte, existe um governo bárbaro, que se constitue em açougue do povo, ao serviço dos carniceiros que se alimentam e enriquecem com o suor dos trabalhadores, e onde vegeta um proletariado que até hoje tem manifestado o seu servilismo e a sua consciência, permanecendo distraído em face dos problemas operários e sociaes, entregue a sanha do primeiro larápio que pretenda rouba-lhe os parcos productos das suas actividades e energias. Isto, porém, devia ter um fim. A grande baixa dos salários há pouco occasionada pela crise de trabalho, não pode, de forma alguma, perdurar, sabendo-se, como todo o mundo sabe, que os capitalistas estão ganhando rios de dinheiro. A crise econômica, isto é, a falta de mercadorias, que encarecem dia a dia, não é causada pela paralização na agricultura ou na industria; ao contrário, como já constatamos, nunca houve aqui tanto desenvolvimento na produção; o que motiva a falta de gênero de primeira necessidade é o açambarcamento feito por uma chusma de exploradores que remetem para a Europa e para os Estados Unidos a maior parte dos productos, para alimentar a guerra! … privando a população do paiz daquillo que precisa para satisfazer as necessidades ao consumo. Segundo a última estatística publicada pela imprensa a exportação realizada no passado semestre deste anno foi superior á que teve lugar durante todo o anno de 1916. A miséria e o trabalho transformam-se em ouro, em vil metal em torrentes caudalosas para os cofres dos negreiros do Capital e do Estado, operando-se este milagre pelo talisman da exploração e do imposto. Ao lado dessa incalculavel accumulação de riquezas, que são esbanjadas na depravação e no vício, no jogo, na embriaguez e na prostituição pelas classes abastadas e pelos funcionários publicos, existe um proletariado que não encontra com o seu trabalho recurso algum para matar a fome dos seus filhos. Este crime social é demasiado grande para que até os mais neophitos não o veja e não protestem contra elle. Dahi provêm, pois, o movimento de reivindicação operária, as greves com as suas conseqüências. Os capitalistas e os governantes permanecem impertérritos na sua intransigência, appellando para os seus direitos, para a lei e para as forças armada. Mas os direitos e as leis dos burguezes é o império da iniqüidade social, da injustiça na distribuição do trabalho e da riqueza. E torna-se inútil argüir com qualquer theoria, princípio ou lei que vise defender este estado de coisas , porque, acima de todas as theorias, de todos os princípios, de todas as leis, estão as necessidades naturaes da espécie humana. A riqueza social e a liberdade são patrimônios naturaes do povo trabalhador e não há razão, ou privilegio que o possa privar desses direitos. O operariado realiza, portanto, uma obra justiceira conquistando pela greve ou outros meios de acção tudo quanto lhe é extorquido, roubado legal ou ilegalmente. E não devem perder esta occasião favorável em que os collocou o incremento de trabalho, que evita em parte a concorrência de braços. O movimento deve generalizar a todas as classes, alastrar-se por todo o paiz, afim de que as conquistas sejam mais rápidas e radicaes. Os patrões e os estadistas oppõem-nos como argumento de esbirros. Isso, porém, não deve fazer retroceder o povo. Todas as conquistas de emancipação, todas as conquistas de emancipação, todas as revoluções populares tiveram lugar, apesar das hostes armadas ás ordens dos dominantes. Além disso o emprego da força só pode servir para desmoralizar o regimen burguez para accelerar a sua decadência. Se até hoje o Brazil tem sido o paiz ideal dos aventureiros e dos argentários que se servem do povo para realização das criminosas ambições, façamos delle o paiz do trabalho, do bem estar e da liberdade, enxotando todos os lobos carniceiros que o infetam. E se, como dizem alguns jornalistas a soldo, o movimento de reivindicação operária obedece á agitação promovida pelos anarchistas, se estes elementos e idéias que professam podem influir para abreviar a victoria da liberdade, para a reivindicação de todos os direitos do povo, então – salve, ó cavalleiros de epópeia libertária! … Salve, ó sublime ideal da Anarchia!
Florentino de Carvalho A Plebe – num 05 – 09 de julho de 1917 Este artigo foi digitalizado pela FOSP seção Campinas do Arquivo Bem Estar e Liberdad. Sobre licença CC, alguns direitos reservados. |